quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Soco no estômago e outros sentimentos recorrentes


Eu tenho essas mariposas no estômago. São mariposas e não borboletas. Elas não são coloridas e seguras de si. São marrons, peludas e imprevisíveis. Passam o dia camufladas nas paredes do tronco do meu estômago e têm essa mania incontrolável de brincar de kamikaze contra as minhas mucosas durante a noite, como se as minhas entranhas fossem um poste de luz num subúrbio qualquer. Temperamentais, reagem de acordo com o que se passa na minha cabeça e andam mais agitadas que nunca. Exigem a minha atenção e não me permitem desligar os dutos que as alimentam. Algumas fazem o caminho inverso do meu engolir em seco e queimam pneus na minha garganta, impedindo a passagem de palavras, bicicletas, gritos e caminhões. As malditas protestam a minha impotência adolescente, a falta de segurança na estrada e uns recalques que há muito só são tapados paliativamente. Minha administração declara hoje a bancarrota. A gerência não possui verbas para um novo asfalto e as paredes do meu sistema digestivo provavelmente ruirão se a chuva escavar mais buracos. No meu estômago não existe sindicalismo.

Eu tenho essas mariposas no estômago e elas não me deixam dormir.
O poste de luz deste subúrbio não teve sua lâmpada substituída por uma fluorescente - e queimou.
Eu tenho essas mariposas no estômago e elas não me deixam dormir.

4 comentários:

Cláudio Bettega disse...

minha sobrinha de 3 anos sempre pede as mariposas do adoniram barbosa, cantada pelo coral brasileirinho :)

fabiana vajman disse...

Achei teu blog pelo do França. Ducaralho, moça.
Abraço.

Sabrina disse...

elas têm o costume de amanhecer mortas?

Sabrina disse...

é uma imagem muito boa. elas costumam mesmo ser muitas, multiplicadas a cada noite no teto e a cada manhã no chão, para as vassouras.
e o melhor é que as suas são mariposas esquerdistas. ^^
no houaiss fala que a palavra é de 1400 e pouco (tô sem ele aqui). vem de "maria, posa-te".
=*